quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Trecho de Vômito Negro Blues- sexo, narcóticos e gasolina-

(...) um filho nosso não haveria de ser padre, um filho nosso tiraria nosso passado do altar católico e jogaria nosso nome na lama, um filho nosso mataria o papa com um tiro na cabeça e eu ainda acharia bonito, um filho nosso seria cantor de blues, mas se não fosse cantor seria Dj de festas do submundo baixo-augusta, ele deixaria as meninas molhadinhas na pista com sets inteiros de trilhas do Tarantino, não, não é isso, está decidido já, nosso filho seria cantor mesmo e namoraria mulheres lindas, modelos da década de noventa e divas do cinema espanhol, até os homens se apaixonariam, um filho nosso dirigiria um Landau preto reluzente com banco de zebrinha e fumaria cigarros importados, teria que ser artista, se não soubesse cantar faria com que ele se dedicasse à literatura, sim ele seria escritor, ou até dramaturgo, jornalista não, todo jornalista sério tende a ser mau-humorado, meu filho seria tão foda que mesmo escrevendo literatura marginal ele conquistaria uma cadeira cativa na Academia, sentaria ao lado dos imortais mesmo cagando para as novas normas cultas e cagaria para Campbell, Stanislavski e cagaria também para Syd Field, Vogler, um filho nosso seria poeta livre, beberia nos bares, sairia com putas, às vezes se apaixonaria mas de uma forma geral se dedicaria mesmo em quebrar corações, não que ele realmente quisesse ferir alguma garota mas em sua natureza a monogamia não seria uma prioridade, meu filho que nem nome teve mas se tivesse seria Johnny, sempre achei Johnny um nome bacana, você fala Johnny e vem logo na cabeça a imagem de um garoto na moto, rebelde de óculos escuro e jaquetão de couro e calça jeans, é quase certo que meu Johnny cresceria e começaria a fumar, eu sei que o cigarro faz mal e coisa e tal mas eu deixaria meu Johnny fumar um pouco, posso até parecer meio louca mas Johnny ficaria lindo fumando um cigarro importado sobre a moto na frente dos cinemas alternativos, nem James Dean abraçado com Natalie Wood, nem Clint Eastwood no auge de seus faroestes macarrônicos, nenhum deles teria tanto estilo quanto meu filhinho, depois do jantar, antes mesmo dele pegar a moto e sair de casa, eu como uma boa mãe que seria, soltaria os pratos na pia e sairia correndo e gritando seu nome pelo corredor, Hey, Johnny não está esquecendo seu maço de cigarros baby? E dançaríamos nos finais de semana, sim, dançaríamos uma seleção inteira de Elvis Presley, uma seleção impecável que começaria com “Heartbreak Hotel” e terminaria com “Love me tender”, enquanto isso eu o veria sorrir de baixo dos óculos escuros e ele diria, eu te amo, para nós todos os dias seriam dia das mães (...)

trecho de Vômito negro Blues-sexo, narcóticos e gasolina
(meu novo projeto, ainda sem previsão pra lançamento mas acho que vai ficar pro ano que vem)

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